SC – Do que se trata a história de “Rafa”?
JS – “Rafa” é um miúdo de 13 anos, que numa noite de Verão decide sair de casa para procurar a mãe que está detida pela polícia no centro de Lisboa. Ele atravessa a ponte que cruza o rio Tejo, e que separa a cidade dos seus subúrbios, quase como num rito de passagem, em que o adolescente sai da sua zona de conforto para viver uma experiência solitária mas em liberdade. O papel de responsabilidade dentro da família altera-se, ele quer ser o “homem da casa”, salvar a família e salvar-se a ele próprio.
SC - Primeiro Cannes com “Arena”. Agora, selecionado para Berlim. Como os Festivais ajudam nas produções, além do prestígio?
JS – Os festivais têm um poder perverso: o de legitimar alguns filmes em detrimento de outros. É óbvio que há um mecanismo que faz com que um realizador cujos filmes são exibidos com regularidade tenha mais possibilidades de continuar a filmar. Acima de tudo vejo os festivais como um lugar privilegiado para mostrar os meus filmes, isso é o mais importante, ainda mais sabendo que no circuito comercial existe muito pouco espaço para uma curta-metragem.
SC-Como são as condições de produção de cinema em Portugal hoje? As co-produções são uma alternativa `a falta de fomento do cinema?
JS – Neste momento vive-se um momento trágico. Apesar da vitalidade do cinema português com vários realizadores cuja importância é inegável (Pedro Costa, Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues e a lista continua…), cada vez menos existe um sentido de dever por parte do estado. O dever de apoiar o cinema, de defender a cultura, a produção de ideias e de sentidos. Neste momento discute-se uma nova Lei do Cinema. É um momento crucial. Se essa Lei não for aprovada, ou se for desvirtuada, isso pode significar o fim do cinema português. Em 2012, o Instituto do Cinema anunciou que não tem fundos para apoiar nenhum filme. Será o “ano zero”. Portugal Ano Zero.